07 août 2006

Brasil

Obviamente, não podemos considerar um "verdadeiro Brasil", uma brasilidade pura. O que seria isso? Os indígenas, primeiros habitantes do território? Há pessoas que discordam dessa teoria, já que nessa época "ainda não havia o Brasil". A cultura portuguesa? Essa colonizou a região, e sofreu uma mutação em contato com outras que se seguiram: africanos, holandeses, franceses; posteriormente italianos, japoneses até os atuais chineses e sul-americanos.

Os primeiros imigrantes, senhores de engenho portugueses, já formaram uma cultura diferente da que tinham em Portugal. Afinal, encontraram uma região diferente e se adaptaram a ela. Ainda que os primeiros fossem mais tradicionalistas, seus filhos e netos não poderiam escapar da nova cultura que ali se estabelecia. Ainda mais entrando em contato com os escravos africanos, que mesmo entre eles já estavam misturados – propositadamente – entre tribos totalmente diferentes, sem falar a mesma língua ou crer nos mesmos deuses.

Para nos mantermos nestes três grupos mencionados, já no século XIX, visitantes estrangeiros como os pintores Manet e Debret registraram uma cultura geral dos brasileiros bem próxima da atual, mencionando pequenos ladrões (os pivetes), falta de praticidade e dinamismo no trabalho, mentiras e enganações; pelo lado ruim. Ao mesmo tempo, já nessa época, a música e folclore brasileiro cresciam e alcançavam todos os setores da sociedade. A mesma história do saci era contada aos miúdos escravos e a seus patrõezinhos.

Com a chegada da família real e toda sua Corte, chegou também todo o requinte europeu, de influência francesa. A nova aristocracia brasileira tentava espelhar-se numa cultura mais européia, até para se diferenciar do restante. Mas acabaria por mesclar-se, adicionando apenas mais um ingrediente para o atual "bolo brasileiro".

Em 1922, os modernistas tentaram instaurar algo totalmente brasileiro. Impossível, pois a noção de brasileiro já é misturada. Os mais radicais invocavam os indígenas, como se eles fossem de uma mesma cultura. Pergunte a um guarani se ele se acha culturalmente igual a um kaiapó em 1500?

Durante os anos de ditadura, com muitos comunistas defendendo igualdade a todos, grupos na UFRJ defendiam uma arquitetura puramente nacional, sem influências externas. O que seria isso? Ocas, como os índios? Ou uma arquitetura colonial, dos portugueses? São as influências que formam o novo.

Hoje em dia, reconhece-se um brasileiro facilmente. Pelo sotaque, gestos, andar e estilo. É um povo que tem muitas diferenças entre si. Muitos de nós temos uma educação mais europeizada, outros tantos a recebem em favelas, esta talvez mais autêntica, pois não é exatamente ensinada, mas sim mais absorvida pela gente que está ao redor. E os conflitos entre esses grupos existem, aprendendo um com o outro.

Quando um carro não pára para dar passagem na faixa de pedestre, o motorista não está sendo um crápula. Simplesmente desconhece esse tipo de educação, ou civilização. Assim como ele, quando pedestre, não espera uma atitude de gentileza tal. A maioria das pessoas se assusta ao se dar passagem, enquanto que outras a exigem. Esse é um exemplo bem simples de se resolver, pois não há muita discussão sobre qual é o correto. Assim, pode ser resolvido com uma boa educação, mudando-se a cultura, evoluindo. Mas outras situações são extremamente relativas.

Quantos não são os europeus que chegam aqui e se encantam com essa liberdade de poderem se vestir à vontade e chegarem atrasados sem se sentirem mal por isso. Em contrapartida, perdem o direito de andarem com dinheiro abanando ou deixarem bolsas desavisadas.

Por sermos tão diferentes, e tão iguais ao mesmo tempo, é que temos essa divergência e nos entendemos muito bem, sem beirar a monotonia.

Comparo o caso brasileiro ao israelense, que também é uma mistura de culturas, sendo que lá ainda está em fase de laboratório, por ter apenas 50 anos. Os imigrantes vindos da Europa sentem-se incomodados com a "barbárie" dos colegas chegados da África e Ásia. Por seu lado, esses acham ridículo o fato de os ortodoxos andarem com roupas de inverno (aqueles casacões dos rabinos, chamados pelas crianças de pingüins) em pleno deserto de 40° C. A aproximação, por hora, é a religião, que ainda predomina o judaísmo. E muitos judeus tremem ao perceberem que mais e mais novos habitantes não compartilham sua religião. Apenas vêm ao país para buscar fortuna, já que Israel tornou-se um lugar desenvolvido na região. Por isso, tentam bloquear a entrada de não-judeus, mas é inevitável.

O próprio fato de serem quase todos judeus incomoda bastante, pois cobra-se tudo. Já me pararam na rua para perguntar a razão de estar vestindo uma camiseta, acho que rasgada.

Sou totalmente a favor de misturar-se cada vez mais. Não acredito na "ameaça" de que a cultura acabe por tornar-se uma só, pois cada região acabará dando um quê de suas características. Por quê não considerar as atuais e tão temidas inserções inglesas e estadunidenses como parte de nossa cultura? Lógico que não deve ser algo nem imposto nem exagerado, mas a influência existe e gera dela uma distorção à brasileira, como se vê no rock nacional, palavras, modas... Sempre que chegam influências ao Brasil, elas são transformadas e levam um toque brasileiro.

E é este toque que é a cultura brasileira, sutil e mesclada.

Posté par iami à 00:05 - Commentaires [0] - Permalien [#]


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